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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Menininha Azul...



Ela não sabia o que fazer quando se viu a sós com aquela garotinha linda e suave, ela nunca se deu bem com crianças, como fazer para que ela pare de chorar para sempre? Naquele momento a menininha ainda não chorava.

Ela pensou, “sou mulher, um dia serei mãe, mesmo que vá demorar um pouco para isso... enfim, sou mulher e um dia serei mãe, nós mulheres sempre nos damos bem com crianças, é o instinto, porque um dia eu serei mãe! E cuidarei dos meus filhos, eles me obedecerão e eu serei uma ótima mãe! Porque não começar a treinar isso agora? Não sou eu a mãe dessa garotinha, mas com certeza saberei cuidar dela por pelo menos duas horas, é o tempo que a mãe dela ficará fora, é o tempo que eu tenho para tirar essa angustia de dentro de mim quando as crianças choram, por favor meu bebê, Don`t cry!”


Bem, por uma hora e meia a criança nada fez a não ser comer e brincar, mas ao final desse tempo ela começou a chorar e um dos dois corações disparou de tanto medo, “porque choras meu bebê?”, a verdade é que quando as crianças choram ninguém sabe o motivo, quanto menos ela, que se angustiava, todas as vezes que ouvia uma criança chorar.

Ao final de duas horas e garotinha continuava a chorar, inegável o fato de que também ela, com todo aquele tamanho, também chorava, e se derramava a cada berro que a garotinha dava, “Deus do céu, crianças me angustiam!”, pensou no que fazer, ela viu a garota, a si mesma e o sol, sim, o sol era forte naquele dia, fazia muito calor, a casa estava abafada, as duas suavam e choravam.

Finalmente o portão então se abriu, era a mãe do bebê, contente e feliz por estar novamente em casa, quando chegou na sala presenciou as duas num derramar de lágrimas, ela apenas riu, pegou a garotinha em seu colo e a colocou próximo aos raios do sol, milagrosamente ela parara de chorar. Ainda sem entender a situação, ela se aproximou do bebê, e os raios do sol daquela tarde batiam no chão e refletiam na menininha, foi a coisa mais engraçada que já presenciou, o sol a banhar uma menininha azul.



Mia Dailan

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ridículos Apaixonados



Eu amo você, dizia ele, eu amo você, dizia ela. Sabe quem somos nós? Perguntava ele, não, respondia ela. Nós somos dois ridículos apaixonado. Dizia ele rindo das risadas dela...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Colheita de Sangue



Naquele dia ela colheu tudo o que pôde, colheu as mágoas de dentro de si e lançou-as fora, como nunca havia feito antes. Colheu todas as roupas do armário, as que usava, deixou-as bagunçada sobre a cama, as que não usava, jogou-as pela janela do quinto andar. Colheu tudo o que havia na geladeira, comeu o que estava com vontade de comer, e o resto da comida, que se resumiam em cinco maçãs, duas peras e dois potinhos de iogurte, ela guardou numa sacola. Colheu todo o resto de coragem que restava em sua alma e com ela cobriu o seu rosto tão carecido de glória. Ela havia feito tudo isso porque naquele dia, bem cedo da manhã, ela iria colher sangue pela décima primeira vez.
Antes de fechar a porta ela olhou para dentro do seu pequeno apartamento e constatou de que ele havia sido feito para ela, era a primeira certeza do dia depois de tantas e tantas colheitas, a verdade era que elas ainda não haviam nem começado. Então ela entrou no elevador com uma roupa de sempre e carregando a sacola de comida, ali havia um espelho e ela pôde ver a ansiedade estampada em seu rosto, pensava ela como haveria de ser colher sangue depois de tantos e tantos anos.
Ao sair do prédio ela parou para observar a rua, algumas das suas roupas ainda estavam espalhadas pela calçada, outras já haviam sido colhidas. Ela parou para observar um pouco mais, percebeu que na rua não havia apenas roupas, haviam também pessoas dentro delas, pessoas que se movimentavam rápido pela manhã, “provavelmente devem estar com fome”, pensava ela enquanto distribuía a comida da sua sacola para os transeuntes da sua rua. Ela bem que poderia fazer isso toda vez que fosse colher sangue, mas se fazia muitos e muitos anos que isso não acontecia, só mesmo Deus pra saber quando isso iria acontecer de novo. Então ela decidiu que iria colher todas essas coisas sempre que houvesse manhã.
Quando já não havia mais maçãs, peras e iogurtes em sua sacola, ela partiu enfim para a colheita de sangue com as mãos livres para bater palma enquanto colhia uma velha canção do fundo da sua alma. Ela estava sentindo aquele dia como se ele fosse o melhor e o mais bonito da sua existência, colher sangue fazia um bem inimaginável à sua pessoa.
Chegara enfim ao determinado lugar, havia uma larga porta branca, nela, escrito em vermelho, se encontravam as palavras “Colheita de Sangue”. Ela já sabia para onde ir, estava com coragem em face e sem o medo que ela nunca teve, e se tratando de colheitas, medo era o que ela nunca iria ter.
Ao entrar na sala notou que três pessoas a esperavam, eles vestiam roupas brancas e portavam instrumentos em suas mãos, uma dessas pessoas, notou ela, era um rapaz muito jovem, e era ele quem portava a seringa que iria colher o seu sangue, as outras duas pessoas eram mulheres de meia idade, uma delas portava uma borrachinha e a outra uma prancheta na qual provavelmente anotava coisas a seu respeito.
-Pode se sentar aqui – disse o rapaz.
Ela sentou sem muito receio, era a décima primeira vez que ela colhia sangue, porém como ela nunca se esquecera fazia-se muito e muito tempo.
Uma das moças de branco amarrou a borrachinha em seu braço, havia passado um tempo e eles tinham dificuldade de achar o caminho pelo qual o seu sangue corria.
-Até parece que ele não quer ser colhido – disse o rapaz olhando firmemente para ela.
-Colhi tantas coisas hoje rapaz. Colhi minhas mágoas antigas, e agora elas já não são minhas, joguei-as pelo quinto andar junto com as minhas roupas. Colhi toda a comida da minha geladeira, Deus sabe que por ser desempregada eu já não tenho mais o que comer. Colhi também toda a minha coragem e por causa dela estou aqui. Colhi sangue por dez vezes, mas faz muitos e muitos anos, era o meu tempo de criança doentia, agora eu quero que você colha o meu sangue, que colha todo o meu sangue.
-Eu só vou colher um pouco, não vai ser muito, te garanto.
-Rapaz! Eu quero que você colha todo o meu sangue, eu sei que sangue é vida e eu não quero mais viver.
-Se sabes mesmo que sangue é vida – disse o rapaz – deveria saber que não adianta retirar todo o sangue de você, porque ele sempre volta a brotar, enquanto eu tiro o seu sangue, seu organismo continua a produzi-lo, em pouco tempo você vai tê-lo todo novamente. E quanto à vida, bem, até hoje eu nunca vi ninguém morrer por doar sangue, pelo contrário, tudo o que ela faz é distribuir ainda mais vida às outras pessoas, então querida, seja o sangue, seja a vida, tudo tem sua volta.


Mia Dailan

domingo, 28 de março de 2010

O Olho do Dique.



Bastava uma meia volta no dique e ela iria pra casa. Sentada, altamente cansada, dispersa por coisas vãs, lá estava ela. Braços cruzados sobre uma pilha de livros que carregava no colo, algumas vezes com a cabeça a baixar juntamente com as pálpebras, em geral estava com sono, resultado de uma vida pré-vestibular.

E o ônibus fez a meia volta do dique, era seu caminho de todos os dias, que então poderia acontecer? Era sempre meia volta e nada mais, sempre meia volta e nada mais.

Nesse dia o ônibus não chegou a dar nem meia volta, não com ela, havia sempre alguém que interrompia a volta inteira, naquele dia alguém interrompeu até a meia volta. Era uma menina, uma menina com o Olho do Dique.

Essa não é uma daquelas histórias que contam por aí como se fosse verdade, não é que o Dique possuía um olho, era ela que possuía o Olho do Dique. Mesmo com muito sono, foi no momento exato, foi na metade da meia volta, que ela a viu, como disse, era uma menina, uma menina com o Olho do Dique.

Ela percebeu que sua visão não estava muito boa, meio embaçada e era tudo o que ela conseguia descrever, geralmente não conseguia nem pensar, pouco importava agora, a menina estava de olhos abertos, se movimentando do lado de lá.

Ela parou pra observar, era uma menina, uma simples menina iluminada pelo sol, com o Dique todinho refletido nos olhos, era a primeira vez, sim, era a primeira vez que ela vira o Dique tão condensado assim.

O ônibus deu a meia volta e seguiu viagem, a menina com o Olho do Dique, ficou no Dique, se movimentando do lado de lá.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Maracujá e Ovo.


Ela já havia recontado as vezes em que tantas pessoas pediam-na para que ela fizesse a mesma coisa de sempre, um doce, como aquele que ela costumava fazer nos finais de semana, mas e agora? como fazer, se o doce por inteiro lembrava os tempos na fazenda junto da família? ela nunca quis que o doce se tornasse amargo.


Haviam duas outras moças junto dela, nas poucas vezes em que havia algo de errado era ela quem sempre estava com um doce, houve até mesmo alguém, que num passado muito remoto e por assim dizer desconhecido, a comparava com um doce, "você é doce" dizia, "doce como um doce".


Mas de fato era o que ela melhor sabia fazer, das suas doces mãos saia uma mistura de maracujá com ovo e outros poucos ingredientes, que ela mesma julgava ser "dos deuses", de fato assim o era, muitos a perguntam o segredo de tal delícia, mas até hoje ela nunca revelou. talvez ela tenha medo, insegurança, talvez vergonha, talvez porque aquilo pertencia a ela e somente a ela, a ninguém mais era dado tal dádiva de adoçar vidas assim.


O fato é que fora da fazenda ela nunca misturava o maracujá com o ovo. No novo local em que morava ela realizava as mais diversas formas de doces, mas o especial, esse nunca se realizava, não importava o quanto as pessoas issistissem, ela nunca quebrava algo que ela própria havia instituído. O jeito era se contentar com os outros doces ou visitá-la no verão em sua fazenda.


Um dia, uma das moças que a acompanhava foi visitá-la, assim que chegou percebeu uma diferença no ar, parecia que a vida mudava naquele pedaço de mundo, tal mudança por si mesma era simples, mas bastante significativa. havia uma diferença no ar, no céu, na terra, nas árvores, em fim, em tudo que existia ali, mas a maior mudança mesmo, ocorreu quando elas entraram na casa. Era uma casa como qualquer outra, haviam portas, janelas, lindas flores ao redor, galinhas ciscando pelo terreiro e nesse meio o que se manifestava era um prodigioso cheiro de maracujá e ovo.

domingo, 26 de outubro de 2008

Ele tirou o chapéu...



Eu o tinha visto no dia anterior, e hoje iria vê-lo novamente, não era nenhuma espécie de constrangimento para mim dormir no sofá, é que ele era pequeno, e as minhas pernas não puderam esticar-se. Enfim, era hoje o dia de levá-lo a alguém que de algum tempo pra cá, tem sido o seu fiel companheiro, principalmente nas horas ruins, como uma delicada cirurgia de reconstituição do olho esquerdo.

Ouvi alguém mencionar que o táxi havia chegado, nesse momento eu já estava pronta, ele não estava. Se não fosse o pai da minha mãe eu até poderia falar algo como: vamos?! Mas minha mãe é exatamente como ele. Acabei por me acostumar com os seus pequenos atrasos.

O dia estava chuvoso em nada refletia no meu estado interior, parecia que eu não estava em mim, passear de táxi foi mesmo para distrair, meu Deus, ele estava tão quieto, típico de quem vai ao médico.

Ao chegar ao hospital paguei os 14,50 do táxi e o liberei pra continuar a fazer o seu serviço pela cidade, afinal, ele devia ter uma esposa, filhos para sustentar, e deveria trabalhar por mais um bom tempo, até se aposentar, exatamente como o meu avô fez durante toda a vida, exatamente como eu também terei que fazer assim que concluir a faculdade.

Como em todos os outros lugares enfrentamos filas, mas ele continuava quieto, e pouco, muito pouco falava. Eu também não falava muito, o meu estado interior parecia inabalável, até que com bastante clareza ouvi alguém pronunciar o seu nome, nos levantamos e em pouco tempo estávamos no consultório.

Ele era bem mais alto que o seu médico, foi nesse momento que eu percebi que ele usava um chapéu, foi quando ele o retirou, encostou-o peito, e pronunciou a seguinte frase:

_Bom dia Doutor.



domingo, 17 de agosto de 2008

Tempo de Sol



Ela já o vira nascer milhões de outras vezes, era um tempo em que o tempo para ela não representava muita coisa, na verdade ele, por ele mesmo era grande demais para a sua imatura cabeça de adolescente.

Tempo demais sobrava e ela não sabia o que fazer com ele, ociosa é o que ela nunca iria ficar, havia algo se movendo dentro dela que sempre dizia: levanta menina! O tempo passa! E ela se levantava sempre ás quatro da manhã para ver o nascer do sol.

Era uma corrida com obstáculos, subia e descia ladeiras, fileiras de paralelepípedos, sempre correndo, o tempo passa! Quando já estava distante da cidade subia uma serra construída pelo bondoso Deus, que a colocava frente ao maior espetáculo que já vira, o nascer do sol. Já cansada da sua experiência diária de atletismo, que por sinal, funcionava bem contra as gorduras localizadas, ela se assentava no chão de terra, algumas vezes ainda úmido por causa da chuva, no lugar mais alto, e contemplava o mundo nascer junto com o sol.

Era triste lembrar que em algumas horas ela estaria sentada numa sala de aula, ouvindo professores que nada sabiam sobre si mesmos. Pensando nesses momentos, se despedia do sol com um beijo suspenso ao ar e refazia o caminho de volta para casa, mas sem correr, apenas andando e sentindo o friozinho do início da manhã que lhe tocava suavemente o nariz.

Chegou o momento de entrar em casa e ouvir o silêncio do sono de todos. Era o momento indispensável do banho, da renovação das energias. Arrumava forças não se sabe onde, vestia uma roupinha brega que outros chamavam de farda e se dirigia a um sanatório onde outros chamavam escola, lá os loucos aprendiam e também ensinavam. Lá os loucos não viam o tempo passar.

_Levanta menina, o tempo passa!

Mesmo tendo acordado tão cedo ela parecia ser a única ali realmente despertada, ela olhava para os seus colegas, e tanto as olheiras, quanto a conversa deles denunciavam como havia sido a noite anterior. Bobos, pensava ela, passaram toda a noite acordados, e no momento mais bonito do dia se puseram a dormir. Ela até tentou argumentar contando como havia sido o nascer do sol, mas eles a convenceram de que para verem o nascer do sol como ela, só se fosse em sonho. Depois de alguns risos bem disseminados pela sala, ela voltou ao seu livro, no qual estava lendo antes mesmo do louco professor entrar na sala, e se deparou com uma frasezinha que dizia assim: é tudo ilusão, é como correr atrás do vento. Percebeu um sorriso brotar-lhe no canto dos lábios enquanto pensava: ainda bem que eu corro atrás do sol.




quarta-feira, 11 de junho de 2008

United!




Ela abriu os olhos quando a música começou a tocar e pela décima vez se perguntou: o que ainda faço aqui? Não havia disposição o suficiente para pensar em respostas, fechou os olhos e ensaiou o que seria um sono, se não fosse aquela música.

Ela tentou se levantar, quando percebeu, estava novamente caída naquele sofá fofinho e branco. Não tinha forças para se erguer, o jeito seria permanecer ali, contrastando o sofá com sua roupa definitivamente rosa. Ela estava bêbada, de sono.

Com bastante esforço conseguiu se lembrar de como viera parar ali, várias noites sem dormir, uma festa de aniversário que termina na madrugada e um forçado acordar com várias mulheres conversando ao seu redor. Agora sim entendia, estava jogada num sofá alheio, a lombar apontando algumas finas dores por causa da posição em que se encontrava, nada confortável, poderia mudar de posição, se levantar e ir em paz para sua casa, se não fosse a sua indisposição e mais ainda, aquela música.

Ela tentou se levantar, ou pelo menos sentar-se no sofá. Desajeitosamente escorregou pelas almofadas e estava agora deitada sobre o próprio braço, ajeitando-o como um devido travesseiro. Fechou novamente os olhos, para dormir. Estaria com toda a certeza dormindo, se não fosse aquela música.
Ela queria se manter acordada, não progredia na sua tentativa, a música era quem fazia isso por ela. Suas pálpebras estavam pesadas, se fechando a toda hora, ainda assim, não conseguia adormecer. Que espécie de música é essa? Perguntava-se enquanto nada conseguia fazer senão "tentar" dormir.

Num instante, foi tomada por uma curiosidade sem igual, que música é essa? Buscou em todo o seu repertório memorial e não a encontrou em nenhum dos seus compartimentos. Essa música fugia dos seus conhecimentos musicais e agia sobre ela a ponto de mantê-la acordada enquanto todo o seu organismo queria simplesmente apagar, pois dormir é suave demais para o que ela queria naquela manhã.

Quem é que perturba o meu sono com essa música? Quem é que faz tal música me deixar assim? Quem é... quem é... abrem-se os seus olhos e a música continuava a tocar, quase ninguém estava por perto, as vozes femininas sumiram há muito tempo, somente a música continuava, encolhidinha ao lado do sofá estava ela, quem é... quem é... responde, quem é... Não, a música não estava alta, estava agradável. Quem é... ei! Responde, quem é... a moça encolhidinha ao lado do sofá permanecia calada. Porque ela não responde, quem é... quem é... a única coisa que se abriu até então foram os seus olhos, ela poderia ter respondido a pergunta, se ela realmente houvesse perguntado... a moça encolhidinha ao lado do sofá agora cantava, como que ignorando a sua curiosidade despertada pela tal música que ela mesma colocara pra tocar, a moça encolhidinha ao lado do sofá...

Ela fez um grande esforço, aproveitou quando seus lábios se descolaram pra bocejar, e perguntou em alto e bom som: quem é? A moça encolhidinha ao lado do sofá, fuzilou-a com um olhar demonstrando toda a insignificância da sua pergunta naquele momento. Logo em seguida, depois de alguns intermináveis segundos de silêncio, limitou-se a responder:
_ United!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Pedrinha...







terça-feira, 27 de novembro de 2007

A Bela Rosa...


A Bela Rosa resolveu se esconder, tudo por causa de uma pétala negra que passou de relance quando ela estava acordando. A visão da pétala negra sendo levada pelo vento foi tão rápida que a Rosa teve dúvidas se realmente estava acordada ou se estava sonhando. O fato é que a pétala negra existiu, ainda que na sua memória.
Tempos mais tarde, quando a visão da pétala negra há muito sumira da sua mente (culpa do tempo que apaga praticamente todas as coisas) e algum tempo mais tarde, quando descobriu que não se escondera... foi então que a pétala negra reapareceu.
Desta vez, a Bela Rosa teve certeza de que não estava sonhando, pois fora atingida profundamente pela pétala que mais parecia uma afiada lâmina tingida de negro. A Bela Rosa perdeu uma de suas folhas e agora sangrava.
Então, resolveu a Rosa novamente se esconder. Não pela radiante beleza que irradiava a pétala negra, nem pela vergonha que sentira ao ver a pétala e saber que existia sim, algo mais belo que ela própria. Resolveu se esconder por medo.
Ela não sabia do que se tratava, quando viu a pétala novamente, voltou à sua memória todos aqueles sonhos que teve desde a primeira vez que a vira. Resolveu entao, tomar a pétala para si, esticou-se ao máximo que pode, como não conseguiu colocar-se a frente da pétala, acabou por colocar a sua pequena folha. Ela queria agarrar a pétala, colocá-la junto das suas, tornaria-se uma Bela Rosa de pétala negra.
Não foi o que aconteceu, a afiada lâmina tingida de negro que mais parecia uma pétala, arrancou a sua folha e a fez sangrar. Pouco depois olhou para o chão e viu sua pequena folha a morrer, percebeu que por pouco ela mesma não morrera. Percebeu também, que não poderia mais se esconder. E se ela voltasse? Não a atingiria mais, com toda certeza, mas olhe para esse jardim! Quantas rosas não existem aqui?! De maneira alguma poderia ela se esconder.
Acontece que ao verem a folha da Rosa ao chão e o sangue a escorrer, as outras rosas guardaram-se, elas tinham o mesmo desejo e os mesmos sonhos da Bela Rosa, mas, acontece que a Rosa estava mais perto da lâmida do que as outras, então elas desistiram. A Bela Rosa foi a única atingida.
Ela começou a se perguntar, se continuaria assim, tão Bela mesmo sem uma das suas folhas. Ao vê-la triste, as outras rosas começaram a dizer:
_ Rosa! Rosa! Porque se entristece?! O que achas? Que és a única Rosa marcada nesse jardim?!
_ Veja! Eu fui atingida por uma pedra e perdi um dos meus espinhos!
_ Eu perdi três pétalas por causa de um vento forte que passou por aqui!
_ Nevou e as minhas folhas congelaram!
_ O sol foi tão forte que secou as minhas pétalas!
_Nem por isso deixamos de ser Rosas, nem Belas! Pelo contrário, são essas marcas que nos diferenciam uma das outras. O que achas?! Que és a única Rosa marcada nesse Jardim?!